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Palavras Iniciais

por filibuster, em 25.02.13

A principal constatação que esteve na origem deste blogue passa pelo facto de os tempos que atravessamos não serem tempos como os outros. Aquilo que tomávamos por adquirido quanto ao nosso Estado social, à saúde da nossa democracia e ao destino do projecto europeu é hoje posto em causa todos os dias, sem que o debate público de ideias em torno deste desafio corresponda aos mínimos olímpicos que se exigiriam. Os cidadãos estão cada mais descrentes dos seus representantes, os seus representantes estão cada vez mais absorvidos pela bolha virtual e mediatizada que rodeia os espaços do poder e o conjunto do País empobrece, vítima de estratégias desconexas da realidade, esvaziadas de solidariedade e perdidas em contradições.

 

Alguns de nós, autores e autoras deste blogue, exercem funções públicas ou já as exerceram, outros têm tido graus variados de intervenção cívica ou associativa em vários momentos das suas vidas, mas todos partilhamos uma inquietação quanto ao rumo para o qual a nossa centenária República se encaminha e a convicção de que é nos valores da esquerda democrática e republicana que se encontram as soluções para os seus problemas. Sabemos também que padecemos de muitos dos males que diagnosticamos e não queremos fugir à crítica ou ao debate que a nossa própria humana imperfeição pode suscitar. Mas, acima de tudo, queremos usar este cantinho virtual para dizer presente a este debate, provocar outros a fazer o mesmo e explorar até ao máximo aquela que é das liberdades mais fundamentais nas sociedades democráticas: a da palavra!

 

E sem desmerecer outras tradições, a figura do Filibuster parlamentar, popularizada no contexto do Senado americano, mas  com pergaminhos igualmente dignos de nota noutros tempos da nossa própria história política, pareceu-nos traduzir o espírito do que pretendemos incutir à nossa intervenção.

 

Trata-se, acima de tudo, de uma forma de manifestar que o mais imprescindível é não deixar de falar, discutir ideias, insistindo nos valores que nos guiam e recusando compromissos e soluções artificiais nos princípios estruturantes. Claro que a opção pode também ser vista como uma gentil e provocatória ameaça de obstrução aos adversários, mas sendo a blogosfera um espaço de convívio plural prometemos que os nossos flibusteiros apenas pretendem afogar a vizinhança em argumentos (e dos bons!).

 

Finalmente, prometemos também não ficar obcecados apenas com a espuma dos dias do debate político, apontando para uma mistura bem mais rica em temas do que a nossa estética e nome poderiam denunciar (não esquecendo, porém, que uma das formas de manter um filibuster eficiente a durar várias horas, passa muitas vezes pela leitura integral de romances ou de antologias poéticas).

 

Esperamos que continuem a visitar-nos.

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publicado às 08:00



6 comentários

De Nuno Félix a 25.02.2013 às 12:07

Mais do que visitar, pretendo "comparticipar" (um termo que é tão querido a todos utentes do serviço público), e criticar (perdoem por antecipação os amigos que aqui escrevem se puser à prova a vossa vocação democrática).

Cantava José Afonso:

Que amor nao me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor nao se entrega
Na noite vazia?
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
(...)
Em novas coutadas
Junta de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
Assim tu souberas
Irma cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia



De Maria Ângela Pires a 25.02.2013 às 13:28


Bem-vindo este blogue ao encontro das palavras, não para se munir delas como armas de confusão e caos, não para alimentar em vacuidade a 'espuma dias dias', não para esvaziar a determinação dos dias, os sentidos do nosso coração, não para criar o espaço para todas as obediências vis e alheias à nossa consciência das coisas.

" Não acreditem no que ouvem.
E, apenas, em metade do que vêem"

(provérbio árabe)
It isn't what we say or think that defines us,
but WHAT WE DO
Jane Austen , Sense and Sensibility

Vamos, pois, com firmeza e cuidado, pelo caminho das palavras que interrogam e põem a nu as verdades possíveis.

Obrigada. Maria Ângela Pires

De Antonovsky a 25.02.2013 às 15:22

É bom haver correntes de opinião positivas, nas quais, a meu ver, este blog se inclui. Há que discutir o essencial e não ficarmos por politiquices e jogos palacianos com vista a atingir certos objetivos pessoas previamente traçados. Se há problemas (e Portugal os tem de sobra) há que tentar resolvê-los e apresentar soluções alternativas que sejam exequíveis e não demagógicas.
Não conhecia a expressão "filibuster", mas conhecia a expressão "filibusteiros", como amante da história que sou, e que designava os piratas (maioritariamente) de origem francesa que operavam no mar das Caraíbas. Derivou da palavra "filibustier". Não é, infelizmente, uma boa referência pela acções, mas sim pela coragem e ousadia. (Atenção, eu sei que é apenas coincidência, embora espere que a parte da coragem e ousadia seja adequada)
Boa sorte

De CBO a 26.02.2013 às 22:52

Sejam muito bem vindos à blogosfera. Serei leitor atento e desejo-vos desde já grandes êxitos.
No entanto, se me permitem um reparo, a caixa de comentários a exigir-me que demonstre que não sou um robô é um bocado desmotivadora...

De Pedro Vaz a 27.02.2013 às 12:09

Car@ CBO eu também acho isso relativamente aos comentários. É uma chatice. Mas é uma forma de impedir o spam.
Abraço

De Manuel Azevedo a 26.02.2013 às 23:33

Bem vindos. Vou ser visita assídua desta casa. Já partilhei um post na minha página no FB. Felicidades e um abraço a todos.

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Filibuster, subs.

1. Utilização de tácticas de obstrução, tais como o uso prolongado da palavra, por membros de uma assembleia legislativa de forma a impedir a adopção de medidas ou a forçar uma decisão, através de meios que não violam tecnicamente os procedimentos devidos;

Filibuster, noun
1. The use of obstructive tactics, such as prolonged speaking, by a member of a legislative assembly to prevent the adoption of measure or to force a decision, in a way that does not technically contravene the required procedures;

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