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Regenerar

por Pedro Delgado Alves, em 05.04.13

 Na conferência de imprensa da partida, Relvas procurou mostrar que deixou algum legado na sua passagem pelo executivo. "A História me julgará" terá dito. Assim será. No entanto, tenho a certeza de que os histroriadores de amanhã não ignorarão o ministro que recebia SMS com informações recolhidas e tratadas por um antigo agente e dirigente dos Serviços de Informações com uma transição pouco clara para o sector privado, não esquecerão o titular da pasta da comunicação social que exerceu pressões directas sobre um diário, através de ameaças de revelações da vida privada de uma jornalista, nem deixarão de reportar o caso da licenciatura como um factor emblemático na imagem pública que ficará do ministro demissionário.

 

Mesmo no balanço da sua actividade governativa, pesará a infeciência absoluta de um programa de incentivo ao emprego jovem que não conseguiu alcançar uma taxa de execução sequer próxima dos 10%, uma reforma do mapa da administração do território construído sem qualquer estudo relevante, contra o bom senso, ignorando os contributos das populações e assente em negociatas de benefícios para quem se aceitasse agregar, e ainda registará uma total incapacidade de concretizar um plano para o futuro do serviço público de televisão, oscilando entre anúncios cacofónicos de privatizações, concessões, fecho de um canal, e outras ideias com a esperança de vida de um fogo-fátuo e com a consistência de gelatina que ficou esquecida ao sol. 

 

No entanto, num outro plano, Miguel Relvas representa uma outra falência, bem mais grave, de toda a nossa Democracia, precisamente o que afasta as pessoas da intervenção política e ajuda a cavar o fosso entre os cidadãos e os seus representantes. Chico-espertismo de ocasião, inconsistência de valores e ideias, ausência de credenciais académicas mínimas, percursos profissionais inexistentes fora do quadro da actividade política ou partidária (ou quando emergentes, apenas tardiamente e devido àquela actividade e beneficiando das excelentes relações nela construídas), eis o perfil que nos é permitido observar há anos e que foi triunfando conforme a nossa vigilância e exigência colectiva se ia afrouxando. Miguel Relvas representa uma forma de intervir na vida política que foi determinante para deixar uma generalizada má reputação às juventudes partidárias, realidades imperfeitas como quaisquer construções humanas e em que se movem pessoas muito pouco recomendáveis, como em tantas outras organizações, mas que estão igualmente cheias de pessoas competentes, sérias e altruístas que merecem muito mais do que ser confundidas com o juízo caricatural e anatemizador que Relvas e os que apresentam percursos similares aos seus ajudaram a legar. 

 

Como um amigo e colega muitas vezes tem dito, mesmo nestes tempos em que o discurso fácil de que todos os políticos são iguais faz escola, apesar de tudo os portugueses foram capazes de distinguir as diferenças entre os seus governantes. Foram capazes, por variadas formas, de exigir a Relvas que fosse estudar, que se demitisse, que tivesse vergonha na cara, que deixasse de poluir o nosso espaço público com a sua proverbial sonsice de quem acha que se pode juntar ao coro de quem protesta contra aqueles que lhes matam o futuro, procurando trautear inabilmente um hino de liberdade e revolta cuja letra nem consegue reproduzir.

 

Aproveitemos, pois, a partir daqui, para provar aos cidadãos que, de facto, quem se dedica à causa pública não se reconduz a um Relvas. Mas exijamo-nos a todos o envolvimento na causa pública, pois só isso pode impedir a sua proliferação - os Relvas não aparecem por acaso, aparecem quando baixamos as guardas, quando deixamos de nos preocupar, quando nos falta a paciência para derrotar a mesquinhez de quem anda na política para se safar. Custa? Sim, custa que se farta ter paciência e força de vontade para não desisitir. Mas quem lutou pela nossa Democracia e pela nossa República, e aqueles a quem as queremos legar, preservadas dos demónios que não hesitariam em pisá-las para se safar, exigem de nós esse esforço. E é mesmo um esforço, não se basta com discursos demagógico e antipartidos - implica estar disponível para lutar, perdendo por vezes, esperando por melhores dias outras vezes, mas nunca desistindo, nas instituições da nossa República, por essa limpeza. Não basta debitar pessimismos a partir do conforto dos sofás espalhados pelo País fora, esperando que o monstro morra sozinho - esse será sim, o caminho da morte certa da Democracia....

  

O dia de hoje, acima de tudo, pode representar uma higienização da República, através de uma nova exigência que se pode e tem de ter relativamente aos seus governantes. Ontem, num momento de menor optimismo, pus no Facebook uma frase de Jorge de Sena em que este afirma que "nada nos salva desta porra triste". Hoje, acho que talvez ainda haja esperança....

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publicado às 03:08






Filibuster, subs.

1. Utilização de tácticas de obstrução, tais como o uso prolongado da palavra, por membros de uma assembleia legislativa de forma a impedir a adopção de medidas ou a forçar uma decisão, através de meios que não violam tecnicamente os procedimentos devidos;

Filibuster, noun
1. The use of obstructive tactics, such as prolonged speaking, by a member of a legislative assembly to prevent the adoption of measure or to force a decision, in a way that does not technically contravene the required procedures;

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